segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Expectativas



Um dia olhei para o passado e vi-te. Vinhas caminhando, os passos largos e determinados, de braço dado com um sorriso. Os teus olhos perseguiam um futuro banhado de luz, bebias a vida com sofreguidão porque em ti nunca houve sossego...

Depois... perdi-te. De vista. 


Olho-te no futuro e sei que me sonhaste o passado. É por isso que nunca te encontras. Não há ninguém que se encontre com as suas expectativas.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Ás vezes o amor...

Quase todos os dias me cruzo com um deles. Umas vezes é ele que regressa com ar apagado. Outras vez é ela que sai de casa para ir ao pão, ou ao supermercado, imagino eu, sei lá da vida da senhora. Tem dias em que coincidimos os três e surge a troca de olhares, o aceno de cabeça ou o circunstancial cumprimento entre vizinhos, cujas vidas não têm por onde se entrelaçar mas que se tocam por obrigação geográfica, por  força de coincidirem em latitude e longitude.  Que estranho é partilharmos as coordenadas GPS mas não temos por onde coordenar as nossas almas. 
Quase todos os dias os ouço. As suas vozes alteradas e as palavras ásperas atravessam as paredes que nos separam e invadem a quietude da minha intimidade. Eu ouço e calo. E mastigo como posso a infelicidade que delas se desprende.
Ontem voltamos a cruzar-nos os três. E no silêncio que se seguiu ao "Bom dia", naqueles instantes em que  voltamos a fechar-nos  sobre nós próprios, ela falou..." Amor, a tua mãe ligou ontem." 
E eu, que quase todos os dias os ouço, lá puxei dos meus dotes artísticos e fingi o melhor que pude que, afinal, lhes mastigava a felicidade.  
Um destes dias ainda vou lá a casa. 
Afinal, o que é para ti esse tal do "amor"?

segunda-feira, 27 de junho de 2011

To swim, or not to swim...

Thank god for the swimming lessons, pensou ela.
Porque raio lhe teria surgido tal ideia ?
Na verdade, nem ela era fluente em inglês, nem nunca tivera as divinas lições de natação.
C'mon! swim!
Outra vez.
Teria abandonado a língua pátria e, na loucura do cansaço, desertado para um país diferente? Há quanto tempo estaria aqui? Dias? Semanas?
Há seis anos fez uma viagem de barco com a sua filha recém nascida, lembra-se bem, foram tempos felizes... Terá sido aí que se deu o acidente?
Swim, god dam'it!
Corrigiu a técnica, adulterada pela ignorância e pelo cansaço, obedecendo a essa estranha língua que não era a sua.
Swim!
E ela tão cansada, e o apelo do abismo azul ali tão perto, tão fácil.
Swim!
E ela tão cansada...
Recorda as palavras do seu pai, que nas férias no Algarve, travestido de instrutor de natação, lhe foi ensinando a arte da sobrevivência no meio líquido.:  "Se algum dia perderes pé, bóia!"
E foi assim, de braços abertos e olhos fixos no céu, que ela esperou que a corrente a arrastasse para terra.

sábado, 4 de junho de 2011

Guerreiros

Muitas vezes a vida se assemelha a um jogo de estratégia tipo "Risco". De batalha em batalha lá vamos posicionando as nossas tropas para vencer o destino. As vezes somos nós próprios um imenso campo de combates mas outras vezes estamos envoltos em lutas corpo a corpo com quem nos rodeia. Quem ganhará? Valerá tudo? No jogo da vida nem todos possuimos as mesmas armas e tecnicas de combate e às vezes, na eminênccia da derrota dos que amamos, é melhor retirar os exercitos do que cantar vitória sobre as ruínas dos que nos tocam o coração...

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Agora mesmo

Foi agora mesmo, eu vi. Ele, com os olhos tristes de cachorro abandonado e a alma negra de mágoa, deitou a cabeça sobre o ventre dela procurando abrigo. E quando as maos dela lhe acariciaram o vento dos cabelos, eu vi que eles eram um só.